quinta-feira, 12 de março de 2009

"Por que não vão defender as crianças com fome?"

Hoje eu estava procurando informações seobre a má administração do Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo e me deparei com este texto.

O Sr. Francisco conseguiu colocar no papel, tudo que eu penso de uma forma extremamente simples e enfática.

Eu creio que me encaixe no perfil dos "que ajudam", mas acho que ainda faço muito pouco. Em 2009 tenho como meta ajudar muito mais, quem ou o que eu puder ajudar e quem sabe me tornar realmente uma pessoa "que ajuda".

O texto é um pouco longo, mas vale muito a pena!!!


RESPOSTA À PERGUNTA DE ALGUMAS PESSOAS
por Francisco José Papi

"Por que não vão defender as crianças com fome?"

Questão interessante. Vamos ver se essa eu consigo responder de modo didático.

1) Quem faz esta pergunta admite que existem dois tipos de pessoas no mundo: As Pessoas Que Ajudam e as Pessoas Que Não Ajudam.

Além disso, admite também que faz parte das Pessoas Que Não Ajudam, afinal, do contrário, diria "Por que não me ajudam a defender as crianças com fome?", ou "Venham defender comigo as crianças com fome!", ou "Não, obrigada, vou defender as crianças com fome".

Então ela se coloca claramente através de sua escolha de palavras como uma Pessoa Que Não Ajuda.

É curioso a Pessoa Que Não Ajuda, não faz nenhum esforço para ajudar, mas, sim, para tentar dirigir as ações das Pessoas Que Ajudam. É bastante interessante. Se eu fosse até sua casa organizar sua vida financeira sob a alegação de que eu sei muito mais sobre administração familiar eu estaria interferindo, mas ela se sente no direito de interferir nas ações que uma pessoa resolve tomar para aliviar os problemas que ela encontra ao seu redor.

É uma Pessoa Que Não Ajuda, mas ainda assim quer decidir quem merece ajuda das pessoas Que Ajudam e o nome disso é "prepotência".


2) Pessoas Que Ajudam nunca vão ajudar as "crianças com fome". Nem tampouco os "velhos", os "doentes" ou os "despossuídos". E sabe por que?

Porque "crianças com fome" ou "velhos" ou qualquer outro destes é abstrato demais. Não têm face, não são ninguém. São figuras de retóricas de quem gosta de comentar sobre o estado do mundo atual enquanto beberica seu uisquezinho no conforto de sua casa.

Pessoas Que Ajudam agem em cima do que existe, do que elas podem ver, do que lhes chama atenção naquele momento. Elas não ajudam "os velhos", elas ajudam "os velhos do asilo X com 50,00 reais por mês".

Elas não ajudam "as crianças com fome", elas ajudam "as crianças do orfanato Y com a conta do supermercado".
Elas não ajudam "os doentes", elas ajudam o "Instituto da Doença Z com uma tarde por semana contando histórias aos pacientes".
Pessoas Que Ajudam não ficam esperando esses seres vagos e difusos como as "crianças com fome" baterem na porta da sua casa e perguntar se elas podem lhe ajudar.

Pessoas Que Ajudam vão atrás de questões muito mais pontuais.
Pessoas Que Ajudam cobram das autoridades punição contra quem maltrata uma cadela indefesa sem motivo.
Pessoas Que Ajudam dão auxílio a um pai de família que perdeu o emprego e não tem como sustentar seus filhos por um tempo.
Pessoas Que Ajudam tiram satisfação de quem persegue uma velhinha no meio da rua.
Pessoas Que Ajudam dão aulas de graça para crianças de um bairro pobre.
Pessoas Que Ajudam levantam fundos para que alguém com uma doença rara possa ir se tratar no exterior.
Pessoas Que Ajudam não fogem da raia quando vêem QUALQUER COISA onde elas possam ser úteis. Quem se preocupa com algo tão difuso e sem cara como as "crianças com fome" são as Pessoas Que Não Ajudam.



3) Pessoas Que Ajudam são incrivelmente multitarefa, ao contrário da preocupação que as Pessoas Que Não Ajudam manifestam a seu respeito. (Preocupação até justificada porque, afinal, quem nunca faz nada realmente deve achar que é muito difícil fazer alguma coisa, quanto mais várias).

O fato de uma pessoa Que Ajuda se preocupar com a punição de quem burlou a lei e torturou inutilmente um animal não significa que ela forçosamente comeu o cérebro de criancinhas no café da manhã. Não existe uma disputa de facções entre Pessoas Que Ajudam, tipo "humanos versus animais".

Geralmente as Pessoas Que Ajudam, até por estarem em menor número, ajudam várias causas ao mesmo tempo. Elas vão onde precisam estar, portanto muitas das Pessoas Que Ajudam que acham importante fazer valer a lei no caso de maus-tratos a um animal são pessoas que ao mesmo tempo doam sangue, fazem trabalho voluntário, levantam fundos, são gentis com os menos privilegiados e batalham por condições melhores de vida para aqueles que não conseguem fazê-lo sozinhos.

Talvez você não saiba porque, afinal, as Pessoas Que Ajudam não saem alardeando por aí quando precisam de assinaturas para dobrar a pena para quem comete atrocidades contra animais, que estão fazendo todas estas outras coisas, quase que diariamente. E acho que é por isso que você pensa que se elas estão lutando por uma causa que você "não curte", elas não estão fazendo outras pequenas ou grandes ações para os diversos outros problemas que elas vêem no mundo. Elas estão, sim. E se fazem ouvir como podem, porque sempre tem uma Pessoa Que Não Ajuda no meio para dar pitaco.

Então, como dizia meu avô, "muito ajuda quem não atrapalha". Porque a gente já tem muito trabalho ajudando pessoas e animais que precisam (algumas até poderiam ser chamadas tecnicamente de "crianças com fome", se assim preferem os que não ajudam).


(este texto pode e deve ser reproduzido) Escrito em 13.04.2005

Marcadores: , , ,

AddThis Feed Button

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A dura vida de quem só quer ajudar

Quando acompanhamos o dia-a-dia de protetores é impossível ficar passivo.

A vontade de ajudar também, de tirar animais da rua, de trazer luz à vida deles, é simplesmente contagiante. E após vencer a inércia do braço cruzado, percebemos que ajudar aos animais é bem mais complicado do que pensamos.

Semana passada, ao levar meus filhos ao colégio, vi um guapequinha na rua, mancando da pata traseira. Tive o impulso de trazê-lo para casa, cuidar dele e procurar um lar, mas escola vem primeiro!

Deixei as crianças no colégio e voltei pra casa. Ao contar para Mari, voamos para tentar achá-lo.

Depois de procurar bastante, eu o encontrei no meio do mato, acoado, tentando se esconder. Quando ele percebeu que eu estava chegando perto, saiu correndo em direção à rua.

A Mari tentou seguí-lo, mas ele subiu a ladeira com uma ligeireza absurda. Peguei o carro e começamos a "caçada".

Depois de um bom tempo e várias descidas infrutíferas do carro, achei o ponto perfeito para pegá-lo. Um carro atravessado na calçada seria o local exato!

Não é que aquele cachorro com uma pata defendida (provavelmente quebrada) e a outra machucada, me deu um drible digno do Garrincha e se mandou??

Ao chegar no trabalho e contar para algumas pessoas, ouvimos brincadeiras dizendo que se um cachorro com 2 patas machucadas nos deu esse baile, imagine se ele estivesse com as 4 patas saudáveis!!

Ainda não o reencontramos para uma nova investida, mas hoje cruzei com uma fêmea de Pastor Alemão linda, atravessando a Av. Cidade Jardim, com a pata dianteira muito machucada e a língua arrastando no chão de tanta sede e cansaço. Não tinha como parar, pois estava prestes a entrar na Marginal.

Mas, chegando no trabalho, peguei a Mari e saímos em uma nova busca.

Achamos esta pastora depois da ponte, numa pracinha, junto com um filhotinho. Larguei a Mari lá e só consegui parar o carro no Jóquei. Os dois latiam muito para ela, que foi se aproximando aos poucos. Lentamente, conseguiu a atenção e confiança deles a ponto de fazer carinho e sentar ao seu lado. Pudemos ver de perto que o machucado era bem grave, a pata estava esmagada, com sangue coagulado.

Fui correndo pegar comida e água no posto em frente, pois estava com o carro da minha mãe.

Quando voltei, a Mari estava conversando com um mendigo completamente bêbado. Um carroceiro que provavelmente era o dono dos cachorros (pelo menos dizia - ou grunhia - que era). Tentamos conversar com o dito, mas o estado etílico do infeliz tornou esta conversa bizarra.

Nenhum argumento nosso era ouvido e ao tentarmos pegar o cachorro, o mendigo nos deixou claro que isso não iria acontecer.

Dois cachorros de rua, machucados, estão vagando ainda, por conta de nossa incapacidade de ajudá-los.

É muito frustrante passar por esta situação, mas quando começamos a pensar em fazer isso, sabíamos que não seria fácil.

Nós agora entendemos porque poucas pessoas o fazem, mas sabemos também que iremos nos juntar a eles e salvar o máximo de cachorros que pudermos. Os que não conseguirmos, iremos rezar para que outros protetores cruzem seus caminhos.

Ilustrei a matéria com as fotos da Baguette (Maysa)e da Bechamel, para nos trazer sorte em nossa próxima empreitada, afinal os outros dois cachorros estão, por enquanto, apenas em nossas memórias.

Marcadores: , ,

AddThis Feed Button


 
Blog Widget by LinkWithin