Comecei o dia ontem, como de costume, alimentando os passarinhos da rua.
Estou muito animado, pois nesta época vários pássaros voltam para cá e deixam o muro da minha casa forrado deles. Cheguei a contar mais de sessenta em menos de três metros de muro. Um show à parte.
Mais tarde fui chamado nos brios pela Mari (minha esposa).
- Já passou da hora de você se desapegar destas coisas velhas (minhas roupas, algumas com mais de 20 anos de existência). "Para o novo vir, o velho tem que ir"! E tem muita gente no Sul precisando disso!
Com tão convincentes argumentos, saí jogando minhas roupas e sapatos nos sacos plásticos. Juntamos três sacos de 100 litros até a boca.
Levamos para um posto de arrecadação de mantimentos e doações para os desabrigados das enchentes em Santa Catarina, localizado dentro do estádio do Morumbi (finalmente esses caras fizeram algo que presta, rsrsrs.)
Chegando lá, um caminhão enorme quase lotado. Muita gente contribuindo. Foi bacana participar e perceber os vários voluntários, todos muito contentes em poder ajudar e por ver tamanha solidariedade do povo. Oxalá fossemos assim o ano todo, não só em épocas de tragédias.
Saindo de lá, passamos no Pão de Açucar para deixar uns 15 sacos de lixo rec

iclável, quase não coube no porta mala do carro, uma vez que os bancos estavam lotados de roupa. É incrível a quantidade de lixo reciclável no nosso dia-a-dia, acho que corresponde a uns 85% do lixo total aqui de casa.
Na sequência, voltando para casa, cruzamos com dois guapequinhas na rua. Um deles já tínhamos visto dois dias atrás.
Mas, muito arisco, ele fugiu de nós e se escondeu em um terreno baldio. Como a Mari já tinha aberto a lata de ração, deixamos no buraco do muro, por onde ele entrou. No dia seguinte não tinha mais nada lá.
Demos a volta no quarteirão e paramos pertinho deles.
Os dois eram muito assustados. Quando um tentava se aproximar, o outro chamava sua atenção e ambos recuavam. Depois de muito tentar, eles se aproximaram.
Quando a Mari abriu a latinha e despejou a carne, eles ficaram alucinados. Eu nunca tinha visto criaturas de Deus com tanta fome. Acabaram com 350gr. de carne em questão de segundos.
O medo deles então se transformou em afeição. Começaram a pular nela para pedir mais comida.
Era a última lata de carne que tínhamos. E agora?
Como estávamos voltando do supermercado, comecei a procurar entre as compras o que poderíamos dar a eles.
Encontrei, então, o café da manhã da próxima semana: dois pacotes de peito de peru defumados em fatias.
Sem pensar duas vezes, abrimos um dos pacotes e começamos a dar ao Bentley e Bugatti (sim, já demos nomes a eles!). Foi um alvoroço maior ainda. Acabou em segundos.
- Damos o outro?
- Claro!!!
Mais um pacote de peito de peru Sadia para os nosso novos amigos.
A fome deles não acabou, bem como sua carência e desconfiança.
Mas com certeza, dormiram melhor essa noite.

O mais bacana deste dia, para mim, é que fizemos tudo isso como anônimos, sem méritos nem confetes para nós. Ninguém saberia disso se não tivesse contado aqui no blog.
Aí você me pergunta:
- Se fez anonimamente e não se importa que todos soubessem, porque está escrevendo sobre isso aqui?
Então... Eu pensei muito se postava sobre isso ou não. Muito mesmo.
Mas como disse no post inicial deste blog, nossa intenção não é nos vangloriar de nada, mesmo porque, não consideramos que o que fazemos seja digno de aplausos.
E principalmente porque não montamos este site para dizer o que você deve fazer.
Montamos este site, para mostrar, o que você PODE fazer.
Fica aqui então, nossa sugestão. Comece a mudar o mundo à sua volta. Um passo de cada vez.
Não tem preço que pague um dia como o de ontem.